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16 de janeiro de 2016

Partes de mim


Era um finzinho de tarde, exatamente às 17h45 quando ela deu o ar da sua graça num hospital fazendo com que sua mãe fizesse piada da cara da enfermeira.
- Mas, meniiina, você já nasceu! Eu estava arrumando a sala de parto!
- Você quer enfiar ela de volta?
E toda vez que ela lembra disso, ri um pouco. Em partes porque ela cumpriu a promessa que havia feito ao âmago daquele útero que estava expelindo-a sem a menor dificuldade: nunca causar dor a ninguém. Em outras porque imagina a voz da sua mãe perguntando a enfermeira se queria enfiá-la de volta para fazer jus a sala de parto.

Em algum momento, talvez depois de aprender a engatinhar, a falar uma ou duas coisas na língua dos bebês, ninguém sabe exatamente quando, ela começou a arrastar a fralda cheinha de mijo pelo chão, e para todo canto que ia estava cheia de pintinhas de tinta no corpo, a caneta ou o lápis e o papel sempre a acompanhava.

Quando era pequena, lembra vagamente, sua mãe desceu desesperada para o hospital com ela apoiada no seu ombro, enrolada numa manta de lã amarela, desde bebezinha os médicos e enfermeiros já estavam acostumados a tê-la por perto, e isso é o motivo de hoje em dia ela ser tão familiarizada com hospitais. E por isso, ela aprendeu como lidar com as dores que acontecem eventualmente, porque ela precisou deixar os remédios de lado.
Criança ativa, menina boba, brincalhona, que ria de tudo e chorava de tudo também. Entre os doze e quatorze anos, não foi muito fácil lidar com os julgamentos, com a intolerância, nem com todas as pessoas que queriam e faziam-na se sentir mal, mas ela conseguiu, não é?

Embora tenha todas as lembranças (boas ou ruins) presas dentro de uma caixinha no labirinto de pensamentos, embora ela tenha que lutar contra todas essas lembranças que tentam atormentá-la, todos os dias.
Ela acorda, com a cabeça a mil, fica encarando o teto lilás do seu quarto e imaginando uma forma de organizar os pensamentos, e deixar essa caixinha num beco sem saída, onde ela pode voltar sempre que quiser ver uma nova lição que está nas entrelinhas, no sublinhado da palavra, na reação da ação, e ter uma base do que fazer e não fazer para evitar que as pessoas tornem a machucá-la.

Embora a dor seja bonita, embora seja um mundo grande e muito bonito, ela sabe das coisas que podem acontecer, e sabe que embora essas coisas aconteçam, haverá sorriso e abraço apertado, haverá o “eu te amo” da melhor amiga, o brigadeiro para furar a dieta, o carinho de pessoas que mesmo que não a conheçam por completo, estarão ali, por ela.


E mesmo que toda e qualquer coisa aconteça, ela estará cuidando de cada pedacinho de si.

Conheça os participantes do Projeto 16 on 16.