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7 de março de 2016

À ela

Via Tumblr.

Eu sou mulher, negra, tenho 17 anos e uma alma surrada.
Sou mulher, negra e corro o risco de ser calada no fim da noite, mas não até o fim desse texto, não até as reticências ficarem transparentes para que uma mulher, branca, com o dobro da minha idade, acrescente seu sangue, corpo e pescoço ao que digo, fortalecendo a luta. Ou comece um discurso machista, anti-feminismo, em que ela é a própria vítima, negando o seu direito e o meu.

Segundo as estatísticas do Mapa da Violência no Brasil, 8.640 mulheres são agredidas, 120 mulheres são estupradas e 16 mulheres são assassinadas, e isso em apenas um dia.
Eu mereço flores, felicitações, poesias, declarações e até uma caixa de bombom hoje, não é mesmo? O que dizer quanto aos outros 364 dias em que 5824 mulheres foram assassinadas por violência doméstica, 43680 foram estupradas e outras milhares foram agredidas? Não me surpreenderia em nada se as estatísticas permanecessem as mesmas até o dia de hoje, onde muitas de nós somos parabenizadas por tantas lutas e, ao mesmo tempo, somos queimadas em praça pública, açoitadas no tronco do Pelourinho, fingimos que escorregamos no banheiro ou aceitamos que quem errou foi eu e não ele, tanto desprazer e a cabeça atordoada pelo gas-lighting. Depois de tanto, eu ainda sou uma mulher.

Sou uma mulher e ontem me espancaram porque não tenho uma vagina, mas uso salto alto e maquiagem.
Sou uma mulher e ontem me espancaram porque tenho uma vagina, cabelo curto raspado de lado, e gosto da minha fruta e não da deles.
Sou mulher e ontem fui estuprada no caminho de volta pra casa. Sou mulher e hoje julgaram-me dizendo que meu vestido era curto demais, como se isso significasse que meu corpo estava numa vitrine para alguém passar a mão.
Ontem me julgaram porque eu, uma prostituta, neguei atendimento a um cliente que propôs sexo comigo, minha irmã e minha sobrinha de um ano. Me julgaram por ter defendido os direitos humanos ao proteger minha irmã e sobrinha da crueldade do mundo e me julgaram por ter ferido os direitos humanos ao espancar aquele monstro até a morte.

Sou mulher, negra, tenho 17 anos e uma alma surrada.
Ela é uma mulher, branca, de 34 anos. E enquanto atravessávamos um beco escuro, boquinha da noite, nos agarramos uma a outra, até chegar a luz da esquina.
Ela é uma mulher, eu também sou. Nosso sangue é vermelho, nosso coração tem o mesmo modelo. A ela dedico estas palavras e para todas as outras que morreram, aos poucos, enquanto você lia esse texto.