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18 de maio de 2016

Sonhos #1

By Reproduction

Você pode ler ouvindo Avril Lavigne - Alice

- Lembra que eu estava aprendendo a tocar teclado?
- Claro que lembro! Faz o que? Três anos?
- Quase isso. Eu aprendi uma música recentemente, vê se conhece.

Ele sentou-se de frente ao piano da Casa de Música que havíamos ido visitar. Não sei se era permitido, mas ele agia normalmente, como se estivesse familiarizado com o local e com o instrumento. Era um local grande e bonito, no geral. Bem rústico, mas muito bonito. O tipo de local que eu sempre sentiria vontade de voltar, tipo aquelas bibliotecas grandes com cheiro de livros novos, velhos. Uma mistura de cheiros e sabores, mas que eu sempre estou disposta a dar uma mordida.
Sentei-me do seu lado, no banco acolchoado de couro preto, e observei seus dedos tamborilarem em cima das teclas, como se agisse com cautela para não errar uma nota. Ele suspirou e começou.
O som do piano invadiu a sala inteira, e logo nas primeiras notas reconheci a música.

- Você aprendeu mesmo!
- Você havia pedido. Agora cante.
- Não tenho tanta certeza do meu dom vocal.
- Apenas cante. – Ele falou com aquela voz convincente de quem tem certeza do que pede, como se me conhecesse muito bem a ponto de saber que eu cantaria de um jeito ou de outro.
- Creeping out/Spinning around/I'm underground/I fall down/Yeah, I fall down – Comecei.

Fazia muito tempo desde que eu havia pedido pra ele aprender essa música, nunca imaginei que ele ainda lembrasse. Alice para Alice In Wonderland. Cantei não tão bem nem tão afinada quanto a Avril Lavigne, ela basicamente apenas abre a boca e a voz sai, ela canta como se estivesse respirando.
Eu preciso de muita coragem e muito esforço para conseguir cantar algo bem, ou digno de ser escutado. Mas, era um pedido dele. Lucas nunca pedia coisas, e lembro que foi ele que me encorajou a soltar a voz, tempos atrás. E ele era meu amigo, não era? O que eu deveria temer?
Continuamos o dueto com maestria. Quando acabamos, estava tão extasiada que dei-lhe um forte e demorado abraço.
- Muito obrigada! Muito obrigada, rapaz. Como você fez isso? Como?
Pude sentir seu maxilar movendo-se num sorriso enquanto o abraçava.

Em dois ts senti aquela sensação de sempre, que havia algo mais, algo que estava sempre no ar, era como se eu sentisse estrelas dentro de mim, mas eu precisava evitar. Eu tinha que evitar.
Eu não suportaria me afastar dele, logo agora que conseguimos nos ver depois de tanto tempo. Eu não queria estragar o dia, o momento, logo hoje... depois de nos divertirmos tanto, depois dele ter me mostrado seus livros favoritos, e ter feito eu me apaixonar pela biblioteca central, que era enorme e parecia o paraíso. Eu não podia. Eu iria embora de novo, eu sempre vou. Não posso arriscar contar o que sinto e perder a amizade dele. Pelo menos isso eu preciso ter!

Me desvencilhei dos seus braços, e fiquei encarando as teclas do piano. Tentando afastar todos os pensamentos, e principalmente os sentimentos.
- O que houve? – Ele perguntou, preocupado.
- Nada, Lucas.
- Você ficou estranha do nada, aconteceu alguma coisa?
Permaneci em silêncio.
- Luce, me conte, o que aconteceu?
- Não aconteceu, Lucas. Não pode acontecer. Você não entende?!
Ele colocou sua mão sob a minha, e eu tentava controlar as lágrimas que jorravam dos meus olhos, como se uma torneira tivesse se quebrado dentro de mim.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, que pareciam se arrastar no tempo, ele me fez apoiar a cabeça no seu ombro, e algumas lágrimas molharam sua camisa azul-claro.

Abri os olhos, olhei para o teto do quarto. Havia uma pequena fresta de luz atravessando a janela, o dia parecia estar acordando.

E eu havia errado uma nota, eu havia sonhado novamente.