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21 de abril de 2017

Freedom




Eu não quero falar sobre as estatísticas, nem como os números tem crescido, mas, até quando? Até quando vamos nos calar? Ou permitir que nossos gritos sejam perdidos no meio da multidão? E, vocês, queridos homens, até quando vão continuar assistindo sem nos ajudar? Parece um pouco difícil não é? Ficar contra os irmãos, mas, e aí, quantas filhas, irmãs, primas, avós e mães vocês vão continuar perdendo? Eu gostaria de ouvir as vozes masculinas em coro dizendo "nenhuma", mas eu não ouço.

Só consigo ouvir a família da professora de faculdade da minha mãe chorando, por ter perdido uma filha nova e doce essa manhã, consigo ouvir a voz da minha mãe falha, embargada, enquanto me contava pelo telefone.
Tudo que eu ouço se resume a aquele grito que queremos dar, quando estamos tendo algum pesadelo muito ruim e nenhum som é escutado por ninguém. Um grito de socorro calado no meio da noite.

Quando eu conheci o conceito de sororidade, passei a entender muitas coisas sobre se pôr no lugar do outro, inclusive como tô sentindo uma dor fina cortando meu peito, por mim, minha mãe, minha irmã, minha avó, minha prima, e pelos parentes das vítimas de ontem e de hoje... A gente nunca sabe quem vai ser a próxima, eu gostaria que não existisse uma próxima, mas o mundo tá nas mãos dos homens, corruptos, violentos e ignorantes, embora exista alguns que se salvam, poucos tentam modificar a realidade que nós vivemos, poucos querem ver.

Poucos entendem porque há duas semanas atrás, eu entrei no ônibus do trabalho chorando, soluçando, e não teve uma alma piedosa para perguntar o que houve, ou me dar um abraço. Ninguém. Eles não sabem que alguns meses atrás, eu quase fui pega ali, na rua aonde eu morava, e naquela noite eu vi tudo se repetindo.

Pense comigo, diante todos os novos fatos, não somente sobre os casos de violência contra as mulheres, mas também a miséria, os casos de suicídio, depressão, inclusive esse jogo Blue Whale que algum doente criou, e todas as coisas que acontecem sem nós vermos ou não querermos ver, você acha mesmo que nós devemos desperdiçar tempo atacando umas as outras, sempre apontando os dedos, sem nunca olhar pra si, e ainda assim ter que aguentar tudo calado?

Sempre que estou sozinha (como agora) eu paro para refletir sobre essas coisas, sabe. Dói tanto ver aonde chegamos, e dói mais ainda pensar até aonde o Homem pode ir. Porque ninguém se conhece de verdade, ninguém sabe o que outro vive, pensa ou faz, nós vivemos um mundo de aparências, onde dizemos que tá tudo bem, mas no fundo não quer ficar sozinho, porque sabe exatamente quais são as coisas que passam dentro da própria cabeça, e não sabemos se em algum momento, em um surto de coragem ou covardia, podemos fazer algo para acabar com alguma dor, a nossa pelo menos.

Eu vejo muitas pessoas compartilhando mensagens bonitas sobre a vida, desejando o bem, e que sejamos gentis uns com os outros, e fico imaginando até que ponto essas pessoas conseguem manter o equilíbrio, e sinto uma vontade enorme de abraçar cada uma delas.

Inclusive a mãe da Rosangela,
a irmã dela,
a avó dela,
as primas, as tias...

Inclusive você que não conheço,
suas amigas, suas colegas,
seus parentes, também seus irmãos, seus pais, tios e avós.

Inclusive a minha mãe,
minha irmã,
minha avó,
minhas primas, minhas tias...
Inclusive a mim mesma.

Eu acredito em todas vocês, e espero em Deus que possamos mudar a realidade a qual sempre estivemos presas.
Consigo escutar os corações de vocês, eles pulsam por liberdade.
E nós vamos conseguir.


"Então pais, sejam bons com suas filhas
Filhas amarão como vocês amam.

Meninas se tornam amores que se transformam em mães
Então, mães, sejam boas com suas filhas também"

(John Mayer)